A partir de 26 de agosto, a inteligência artificial na medicina entra em outra etapa no Brasil. Não porque a tecnologia esteja chegando agora, mas porque seu uso já avançou da experimentação para a prática cotidiana, inclusive na ponta assistencial. A Resolução CFM nº 2.454/2026 torna institucional uma responsabilidade que acompanha esse movimento. Por isso, o desafio agora se deslocou para outro eixo. Segue a análise.
Já na próxima semana, a avaliação de risco, supervisão humana, auditoria, monitoramento e definição de responsabilidades passam a estabelecer uma nova referência para a operação. Com isso, muda também o objeto da gestão. A questão já não se resume a onde aplicar inteligência artificial, mas a como integrá-la aos fluxos assistenciais, ao trabalho dos profissionais e às decisões clínicas de maneira consistente e escalável.
É justamente nesse ponto que conceitos antes restritos ao universo técnico ganham peso estratégico. A observabilidade permite acompanhar o comportamento real dos sistemas, identificar padrões, desvios e oportunidades de evolução. Em complemento, accountability, termo adotado pela própria resolução, explicita quem decide, quem supervisiona, quem intervém e quem responde.
A partir dessa perspectiva, parece emergir nos sistemas de saúde um novo princípio, que poderíamos denominar “Integridade Decisória”. A própria resolução se aproxima dessa ideia ao incluir entre seus princípios o devido processo decisório em saúde. Trata-se de preservar condições para que uma decisão clínica permaneça compreensível, contextualizada, rastreável e atribuível.
Essa integridade depende de qualidade da informação, desenho assistencial, supervisão profissional, clareza de papéis e capacidade institucional de intervir quando necessário. Ao mesmo tempo, são essas condições que permitem ampliar o uso da tecnologia com confiança. Em saúde, segurança e inovação não ocupam lados opostos. Uma arquitetura mais madura amplia a capacidade de incorporar soluções entre os pontos da jornada assistencial.
Diante disso, o risco estratégico central passa a estar tanto na ausência de estruturação quanto em uma organização inadequada desse movimento. Profissionais já utilizam essas ferramentas, soluções já chegam aos fluxos de cuidado e a tecnologia seguirá avançando. A escolha institucional é permitir que essa incorporação ocorra de forma fragmentada ou convertê-la em capacidade assistencial organizada. Maturidade digital passa pela capacidade de ampliar o uso da tecnologia e responder pelas decisões que ela ajuda a construir, sob as perspectivas clínica, institucional e legal.
Dessa forma, torna-se essencial conhecer instituições capazes de traduzir essa transformação em cuidado, operação e responsabilidade. É nessa linha que atuo junto a Galileu, na convergência entre saúde, tecnologia e modelos assistenciais.